Começou o carnaval de Salvador

Eu não gosto do carnaval de Salvador como está agora.
Mas acho o conceito de carnaval algo fantástico. Uma pena que uma coisa não tenha absolutamente nada a ver com a outra.
O tempo passou e ao invés de evoluir, a festa tomou um rumo degradante em todos os aspectos. Parece que quanto pior a festa fica, mais os foliões adoram.

Para começar temos as boas vindas dos circuitos impregnando nosso olfato, com o internacionalmente famoso cheiro de urina. Uma das atrações da festa, sem dúvida.
Acredito que seria bem diferente se não houvesse esse fedor. Coisa de animal selvagem, né? Marcar o território com a própria urina. Tape os olhos de qualquer pessoa, coloque-a no meio da folia, mesmo no completo e absoluto silêncio e ela identificará imediatamente onde ela está. Taí­ um produto que seria interessante para os apaixonados pela festa: aromatizante de veí­culos. Em vez de flores do campo, lavanda, uva ou qualquer perfume com nomes duvidosos, terí­amos o urina experience, mijo folia ou lago dourado. Dessa forma, quando você saí­sse com seu carro, ligaria o som bem alto, tocando as porcarias carnavalescas atuais e teria uma experiência do carnaval de Salvador nos outros 358 dias do ano. Alegria, alegria é o estado que chamamos Bahia.

E por falar em música, há controvérsias. Não queria entrar nesse mérito, até porque temos o envolvimento de referências e gostos pessoais. Não resta dúvida que existem músicos fantásticos em cima dos mamutes eletrônicos (os trios elétricos), estudiosos, virtuosos. Mal remunerados em sua maioria, aproveitam a indústria da mediocridade musical para ter um pouco mais de dignidade em sua vida, regrada e imprevisí­vel. Não é suposição minha. Além de muitos amigos músicos, também já fui um. Toquei em palco, toquei em trio, fiz turnê. Um prostituto musical, como costumo dizer. A diversão e a esbórnia é garantida…mas o salário, ó…

Também não queria falar nos artistas que fazem sucesso por aí­. Assumo o meu preconceito cultural. Analfabetos funcionais, oferecem apenas a habilidade de fazer as pessoas tirarem os pés do chão, colocar as mãozinhas pra cima e se imaginar flutuando num céu de alegria e repetindo refrões monossilábicos em loop infinito. Coisa que nossos ancestrais mais longí­nquos já faziam com destreza. A única coisa que mudou foi o tacape, que agora é inflável, tem formato fálico e é patrocinado pelo seu banco ou bebida favorita. Bem pertinente ao conceito da festa.
Exigir que esses artistas tenham algum ní­vel cultural para que formulem frases completas sem dar um gritinho ou falar que a Bahia é festa, seria demais, né? Obviamente estou generalizando. Sei que tem gente boa por aí­ também. Mas esses estão calados ou dando gritinhos e dizendo que a Bahia é festa. Ô nanaê, vem bananear ê á.

E a festa, hein? Como mudou.
Carnaval era uma festa popular. Não mais. O que vemos hoje é um circuito margeado por gigantescos camarotes e quase nenhum espaço para o folião da pipoca, que levava esse nome por causa da conotação de pular durante o carnaval. Hoje, ele é pipocado de murros e pontapés se chegar perto da corda de um condomí­nio itinerante, com vizinhos padronizados e que não quer se misturar com as pessoas que não tem ou não querem gastar seu dinheiro, alugando o direito de usar um espaço público. Sob outro ponto de vista, os blocos parecem uma boiada. O berrante eletrônico vai tocando o gado nessa grande fazenda chamada Salvador. Enquanto isso, “porcos em lama se comprazem, mais que em água limpa”.

Hoje tem até camarote com “experiência de pipoca”. Um pequeno cercadinho onde os privilegiados do simulacro da alegria podem chegar um pouco mais perto da “prisão” às avessas: onde os presos estão soltos e o público admira dentro de celas requintadas : sala de massagem, DJ, maquiadores, abadá stylist, hair stylist, japanese food, lounge temático, heliporto, acupuntura, boate, open bar, all inclusive inside you. O glamour e a sensação de participar de um reality show de mulheres e homens ricos em plena folia, com direito a salto alto, jóias, maquiagem exagerada, abadás estilizados e perfume extreme mode on. Um forno de frango assado. Rodando e rodando no espeto numa vitrine de futilidade. Ode à beleza grega assentada na tragédia, da peça que é o carnaval.
Essa situação, obviamente, atrai o ser humano de diversas partes do planeta. Pegam seus aviões dos mais longí­nquos cantos para participar sem regras e restrições da maior orgia social do mundo. Vem fazer aqui o que não podem fazer em suas cidades, em seus paí­ses, sob pena de serem presos. Aqui tá liberado. É carnaval.

Aborde quem você quiser, da forma como você quiser, sem medo de ser mal interpretado. Bêbado ou não, puxe pelo cabelo, segure a cintura, dê uma gravata. Trate primitivamente. Elas jamais vão assumir que gostam. Mas estão ali, disponí­veis exatamente pra isso. Ok, ok…generalizando de novo. Muitas estão ali, disponí­veis exatamente para isso. Pronto.

Falta pouco para apreciarmos as orgias romanas tal qual como foram há séculos. Todos nus, drogados, bêbados, masturbando-se e comendo-se em um festival de promiscuidade, aberrações e proliferação de doenças. Mangueiras de nervos cavernosos despejando os fluidos genitais como combustí­vel da alegria.
Na sua cara. Ao vivo e em rede nacional. Aliás, rede internacional. O pau elétrico penetrando no mundo, definitivamente, sem lubrificante social.

Que pena hein, Dodô e Osmar?

4 Comments

  1. Velhinho, concordo com algumas das coisas que você postou aí­, mas continuo a acreditar que dentro de toda essa multidão e toda essa capitalização dos camarotes e blocos ainda exista a alma carnavalesca do povo. Pulei somente dois dias de carnaval esse ano e vi muita coisa pela TV. Para mim já está começando a acontecer um retrocesso na história. Não sei se você reparou, mas esse ano tivemos um número maior de trios independentes com atrações de peso. Para mim, o melhor do carnaval, foi a pipoca do EVA que arrastou uma multidão bem em frente í s cí¢meras de televisão no circuito mais popular do carnaval. E mais.. chegando na praça Castro Alves encontrou Moraes Moreira e fizeram a festa. Aliás, não sei de quem foi a brilhante idéia (achei massa mesmo, sem sacanagem!) de distribuir “mamães-sacodes” pela praça. Foi um momento nostálgico… mas uma nostalgia com um olho no futuro. Hoje li no IBahia que a venda dos blocos e camarotes tiveram uma queda de 40% esse ano. Teria sido a greve da polí­cia? Ou será o povo tomando consciência dos exageros? Enfim, romí¢ntica que sou, continuo a ver nas ruas e nos rostos de alguns (muitos) foliões a energia do verdadeiro carnaval. Quanto ao resto … me dou a escolha de dar de ombros e fazer um “nem te ligo”…. Como diria Caetano: “Todo mundo na praça, manda a gente sem graça pro salão” Beijos

  2. Quase um ano do texto e – quase – “já é carnaval cidade, acorda pra ver” de novo!
    O texto continua valendo… Pelo menos para mim.
    Matrix – RELOADED!
    Abraço.

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