No país das maravilhas


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Finalmente as luzes se acenderam e todo o elenco da peça apareceu para receber os aplausos entusiasmados da platéia, composta basicamente pelos parentes dos mini atores. Todo final de ano é isso: sempre uma apresentação no colégio ou num teatro.
E quando se tem diversas crianças, de diferentes idades, na família, o suplício é longo e cansativo. Dias e dias de compromissos em locais abarrotados de genitores orgulhosos de suas crias sempre superdotadas de todo tipo de talento.
Não foi diferente nessa manhã de sábado. Depois de uma cansativa noite anterior em um aniversário que varou a madrugada, acordo cedo para prestigiar minha sobrinha em sua peça de final de ano. A saber, Alice no País das Maravilhas.
Tudo muito lindo e engraçado. Até mesmo os esquecimentos das falas e os improvisos que tiravam boas risadas da platéia.
Após os cumprimentos, saí para buscar o carro que ficou estacionado próximo, obviamente porque não havia vagas na frente do teatro.
O clima delicioso de pré-verão na Bahia, ao meio-dia, proporcionava uma sensação também deliciosa de cérebro derretendo. Mesmo passeando a beira-mar, a brisa quente incomodava em contraste com a linda paisagem.
Quente também estava o clima entre duas amigas que, sentadas na balaustrada discutiam seriamente. Com os olhos lacrimejados, olhavam fixamente uma para a outra sem perceber a minha passagem.
Ao chegar perto do carro notei algo estranho em cima do capô. Sem acreditar percebi que era uma tijela com frango, arroz, feijão e algumas outras coisas que eu não consegui identificar e bastante irritado já ia metendo a mão para tirar quando uma senhora gritou.
– Cuidado meu amigo! Deus é mais! Isso é um despacho.
– Despacho? Não minha senhora, veja, é uma marmita.
– Onde já se viu marmita em tijela de barro, menino?
Ela tinha razão. Eu nunca tinha visto marmita em prato de barro. Mas despacho…
– A senhora tem razão. Mas será que é despacho mesmo? Em cima do carro?
– Se esse ebó é pra você, o lugar está mais do que apropriado.
– Minha senhora, estou ficando assustado mas eu não tenho, até onde eu sei, nenhum inimigo. O que devo fazer?
Ela gentilmente olha para o lado e fala com o rapaz da banca de revista.
– Gêu…faz o que, Gêu?
– Faz o quê de quê?
– O rapaz chegou aqui e encontrou um ebó em cima do carro dele.
– Aff Maria. Quem é doido? Larga o carro aí e pega um “Ubes”.
Indignado e temeroso com a situação, pensei em dar um tapa no prato. Mas desisti com a desculpa de que iria sujar a rua.
– Reze um pai nosso, uma ave maria e tire o prato daí – aconselhou a senhora.
– Minha senhora, já que você tem essa fé, me ajude. Faça isso por mim então.
– Deus é mais. Não meto minha mão aí nem morta.
– Mas não era só rezar o pai nosso e a ave maria?
– É sim. Mas o carro é seu.
O sol escaldante não dava uma trégua e todo mundo que passava e ouvia nossa conversa, parava para contemplar o impasse, inclusive as amigas que discutiam na balaustrada.
Um jovem senhor, morador de rua, que estava visivelmente embriagado chegou mais perto e, com os olhos arregalados, avaliou o prato. Pensei que ele fosse pegar o prato e se fartar. Mas, para a surpresa de todos, ele reclamou:
– Ô véi…nessa macumba não tem cachaça? Vocês já beberam e não deixaram nada pra mim? Ô véi…
Saiu chateado enquanto outros caíram na risada.
Enquanto isso, eu fiquei ali, com o carro amarrado e sem saber o que fazer, quando caiu a ficha: acho que não é ebó, já que não tinha nenhuma cachaça e nem pipoca! Não conheço nada de macumba mas tá faltando ingredientes!
No mesmo momento em que a ficha caiu um guardador de carro chegou correndo, pegou a marmita em cima do carro e saiu resmungando:
– Deus é mais! Não posso ir no banheiro que esse monte de gente vem querer filar meu rango. Se saia!

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