O obituário

Jaime tinha uma tarefa ingrata como escritor do jornal da cidade. Ele escrevia, todos os dias há mais de 30 anos, o obituário. Queria ser um cronista e poder contar suas histórias para o pacato município. Mas o dono do jornal achava que ele tinha um talento especial para escrever o obituário.
Na verdade, Jaime tinha mesmo esse talento para a mórbida tarefa. Além da lista dos novos cadáveres, ele sempre implementava a coluna com uma linda mensagem de conforto e terminava com o chavão “…e o mundo continua girando”.
Costumava se inspirar na varanda do jornal, imaginando histórias onde os defuntos eram as personagens e, entre vários cigarros, um copo de café e outro, sentava-se na frente da antiga máquina de escrever e redigia suas mensagens matinais.
Não à toa, o obituário era a sessão preferida das alcoviteiras da cidade e suas palavras eram sempre elogiadas quando ele aparecia na farmácia.
Um dia o dono do jornal delegou, às pressas, Antônio para redigir o obituário.
A partir deste dia a coluna saiu sem as mensagens de conforto.
E o mundo continuou girando.

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