Old is Cool

Natal de 1983.
Aos 10 anos e com um ní­vel de ansiedade comparável a de um hamster correndo perigo, eu esperava a manhã do dia 25 para abrir o meu presente. Não poderia abrí­-lo antes, mesmo sabendo que ele estava no maleiro, para que minha irmã não desconfiasse da inexistência do bom velhinho.

No grande dia, acordo cedo, corro para a sala e o meu troféu, minha preciosidade estava ali, me esperando ao lado da árvore de natal.

Apesar do entusiasmo perceptí­vel pela taquicardia abri o presente lentamente, sem rasgar o papel, praticamente um “unpacking” orgasmático. Foi melhor assim, uma das melhores sensações para um jovem nerd.
Porém, fui forçado a me alimentar e, acreditem, sair para a praia sem mesmo ter ligado o meu novo video-game, um Atari 2600, na televisão. Um trauma que me persegue até hoje. Desde então, odeio praia.
Lembrei de tudo isso hoje de tarde quando visitei um evento chamado Gamepólitan, uma feira de jogos eletrénicos, com mais dois amigos da “velha guarda nerd”.

Mas o que mais me chamou a atenção não foram os consoles e os games antigos. Notei que a comunidade mais numerosa nesse evento era composta por jovens estranhos, travestidos de personagens de animes e games (cosplay), andróginos e futuros desajustados sociais. O evento tinha muito mais uma tônica de local de encontro desses jovens do que uma feira de games. Prato cheio para um estudo sociológico mais aprofundado.
A feira não era muito extensa. Uma pequena parte de um pavilhão do centro de convenções com alguns stands vendendo fantasias e bugigangas, além de algumas “arenas” de torneios de jogos e um espaço para palestras. Se não houvesse a multidão de walking nerds em busca de seus pares, podia-se percorrer toda a extensão da feira em menos de 3 minutos.

Talvez, de forma ingênua, pensei que fosse resgatar um pouco daquele entusiasmo ao entrar em uma feira de games. Mas tudo mudou e eu percebi que me tornei um tiozinho saudosista, para não dizer um velho careca ultrapassado.

De qualquer forma, aguardo ansiosamente o lançamento do Playstation 4, estou tentando aprender com meu filho o verdadeiro sentido de se jogar Minecraft e o Atari é apenas um imã na minha geladeira.

4 Comments

  1. Eu associo isso como experiências narrativas ampliadas, sabe? o problema que percebo aí­ é que é tão ampliada, mas tão ampliada, que chega a se descolar do sentido real de uma feira (!?) de games… É meu velho, o mundo está mudando: rápido, direto e sem nenhum ressentimento do que passou. Vamos continuar seguindo em frente.

  2. rapaz, ainda bem que não fui. adorei os “desajustados”.
    sobre os games, depois que comecei a tocar e curtir som, deixei de lado. hoje só curto um baba online de vez em quando com amigos.
    agora várias outras coisas “old school” continuam comigo, principalmente, nos discos.
    abs

  3. Ai… detesto estas tribos de gente esquisita, mas não tem jeito, os da velha guarda sempre sentirão estranheza diante do novo, diante de releituras, diante de novos comportamentos. Me sinto cada vez mais alguém de um tempo que está ficando prá trás, embora procure sempre estar por dentro das mudanças.

  4. A visita valeu apenas pela companhia dos amigos e num evento de dimensões soteropolitanas, você não teria como resgatar nada, velhinho. Vale registrar o metro quadrado com maior número de pessoas esquisitas que vi nos últimos tempos.

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