Outros mundos

Ao sair do consultório 1, aquele senhor de expressão triste sentou-se ao meu lado no sofá. Cabisbaixo, mão direita alisando a fronte, denotava o abismo de preocupações que o afligiam naquele momento. Colocou sua mala de mão na mesa de centro e lamentou com um pequeno ruído a sua presença ali. Pensei que era mais uma crise de um paciente daquela casa bem cuidada, localizada em uma rua tranquila.

Uma porta com sistema de trava eletrônica e uma recepcionista me separavam de um mundo que estava curioso para conhecer. Um mundo rejeitado e discriminado por todos que acreditam se situar do lado oposto.
Guiado por Thomas, atravessei o portal da sanidade para saber um pouco mais sobre as atividades e rotinas daquelas pessoas que estavam confinadas daquele lado. O olhar desconfiado de um dos membros da equipe de apoio deu as boas vindas sem ser ameaçador.

Os quartos não eram individuais. Geralmente duas ou três camas, uma televisão e um paciente deitado, assistindo a vida que ele não poderia ter. Ou talvez contemplando apenas uma sucessão de imagens que não representava absolutamente nada em sua rotina sem significado. Um gargalhada alta, quase histérica saiu do primeiro quarto que visitamos. Era de uma mulher de meia idade que estava conversando com Suzete, a filha do senhor triste que estava na recepção. Ela era nova ali, chegou pela manhã e fora internada por tentativa de suicídio. Algo grave, por isso a desolação do pai.

Uma TV LCD de 40 polegadas distraía alguns pacientes em uma sala de convivência onde uma psicóloga conversava com um paciente específico. Tudo bem tranquilo, sem nenhuma evidência de descontrole.
Em uma área central da casa, aberta para o céu, familiares conversavam com os pacientes que pareciam estar em um clube numa tarde de sábado, contando sobre sua vida e o que tinham feito ao longo da semana. Alguns trouxeram um lanche e uma garrafa de refrigerante. Outros, somente sua atenção.

Ao caminhar ao redor da piscina fomos abordados por Diego, dependente químico, esquizofrênico, cabelos lisos e um pouco compridos. Parecia um surfista. Fala arrastada e olhos semicerrados devido a alguma substância que o fazia deslizar lentamente para alguma viagem da mente.
Minha visita continuou e encontramos Jairo, pintando com lápis de cor uma mandala xerocada em uma folha de papel ofício. Ao ser apresentado, apertou minha mão de forma decidida e segura, alegando, pelo menos, ser um lugar para distrair a cabeça como se justificasse a sua presença na casa. Alguns trabalhos em argila e quadros me chamaram a atenção sobre uma mesa que estava encostada em uma das paredes da academia, onde aconteciam grupos terapêuticos durante a semana.
Em seguida fomos abordados por uma paciente, jovem, que cumprimentou Thomas e disse precisar de sua ajuda. Queria conversar. Depois que ele, de forma brincalhona, disse que eu estava pensando em me internar, ela desaconselhou:
– Não faça isso.
– Por que? Questionei.
– Porque aqui é um fascismo ao cubo.

Seu olhar era profundo e revelava uma imensa insatisfação. Ela continuou.
– O tempo todo é: não, não, não, não pode, faça isso, faça aquilo. E você não precisa disso, não é?
– Não. Mas se precisasse certamente estaria aqui.

Rimos e ao continuar a caminhada, Thomas chamou a atenção para a descontração de um dos pacientes que colocava uma perna em cima de outra paciente, ambos deitados em espreguiçadeiras ao lado da piscina. Estão bem tranquilos. Tranquilos até demais.
Fomos então em uma ala reservada para pessoas mais idosas. Essa ala localiza-se em uma outra casa próxima. Ao passar pelos guardiões vestidos de branco do portal da normalidade, vi em um dos quartos um senhor catatônico, olhando fixamente para uma porta. O caso mais grave daquela ala. Gostaria de saber quais eram os pensamentos daquele pobre homem. O que havia de interessante naquela porta? Por que olhar horas, parado, para um único local?

Antônia Maria, de olhos lindos, nos acompanhou de volta a outra casa. Thomas resolveu levá-la para compartilhar um pouco do seu tempo com os outros pacientes mais jovens.
Ao contrário do que se imagina, ela era bem esperta e tentava convencê-lo de que estava boa. Boa de ter alta.

Minha visita foi um breve documentário nessa tarde de sábado.
A paz da rua contrastava com as guerras que se travavam dentro daquelas cabeças. E eu saí de lá ferido.

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