The Night

Estávamos conversando ao som de Coltrane e apreciando um delicioso merlot quando esse meu amigo relatou uma experiência que ele teve ao sair na “night” de Salvador.
Diante da oportunidade de um convite para uma discotecagem de um outro amigo, lá foi ele em busca de novas observações sociológicas. Claro, aos 41, sabia que não encontraria pares na festinha e que, como estranho no ninho, deveria aproveitar a situação para analisar o comportamento das pessoas.
Ao chegar na porta do studio bar percebeu o quanto seria interessante aquela night. Jovens alternativos denotavam sua condição pela aparência e comportamento. Um prato cheio e saboroso para incrementar o repertório antropológico do nosso amigo.
O ambiente era austero: um pequeno palco, um vão com mezanino com as paredes cobertas de madeira simulando aquelas caixas de verdura de feiras. Mas o nome disso hoje é “pallet”. Isso, pallet. No fundo, lá ele, havia um pátio conversível, onde os mancebos bebiam, fumavam e conversavam, trocando olhares provocadores e, às vezes, olhando para o nada, em busca de um sentido para a própria existência. Enquanto isso, os pallets aguardavam o começo da feira.
Pegou uma água mineral sem gás e, um pouco constrangido respondia encarando fixamente a pergunta que a fumaça escrevia quando ele passava: o que esse senhor está fazendo aqui?
O amigo DJ começou a tocar músicas conhecidas. Com um novo arranjo, bem verdade, mas eram conhecidas. Parado num canto e encostado nos pallets, bebendo sua água mineral sem gás, nosso amigo prestava atenção e se admirava com aquilo tudo. Porém, uma coisa chamou a atenção: os mancebos vibravam freneticamente com as músicas que fizeram sucesso há um bom tempo, mesmo sabendo cantar apenas uma parte do refrão ou as interjeições vogais monossilábicas das músicas que embalaram antigos carnavais. Quando ele disse antigo, estava se referindo à Daniela Mercury, Olodum, Ilê, Banda Mel, essas coisas.
De repente, o sabido DJ bota pra tocar uma banda que nosso amigo nem conhecia mas que agitou o vão empalletado. Baiana System.
Ao presenciar aquele transe psicodélico coletivo, nosso amigo lembrou dos shows de rock que ele costuma ir. A euforia é a mesma, com a música diferente. Ele finalmente se viu ali, numa capsula do tempo, num “de volta para o futuro” onde ele mesmo estava dançando no passado, batendo cabeça ao som distorcido das guitarras.
Tribos distintas, músicas distintas, idades distintas, mesma celebração.
Restou ao nosso amigo, no fim da night, observar uma briga que aconteceu ao seu lado mas sem consequências desastrosas. Ficou parado olhando um dar murro na cara do outro a menos de um metro de distância, enquanto os outros corriam abrindo um grande círculo para fugir da confusão. Talvez ele estivesse observando a briga como mais uma dança. Mais uma manifestação hormonal em ebulição. Esses mancebos são levados da breca mesmo.
Às três, horário que geralmente vai dormir depois de vagar por livros e pela internet, nosso amigo resolve ir pra casa, com as costas começando a dar sinais de desconforto e um zumbido chato no ouvido. Cumprimentou um segurança com um “boa noite”, que estranhou a atitude franzindo a testa mas retribuindo com um inseguro e tremido “boa”.
Tomou um banho, leu uma crônica e foi dormir mais jovem.

4 Comments

  1. The best! Amei!!! E que riqueza de detalhes e leitura naravilhosa. Mas essa história de “amigo”, me parece aquela estratégia de perguntar à sexóloga sobre algo bem cabuloso e dizer que é uma enorme dúvida de um “brother mancebo”.

  2. Um Post, Real, das “Realidade” Submundanas da Night,do UnderGround, das Cachaças, do Som, das Músicas, do Álcool,,, de quê mesmo ??nMeu Jegue tá amarrado “naonde” ?
    Boa noite…
    Boa…

  3. Gostaria de ter visto tua cara ao presenciar tudo isto. As fotos estão ótimas. A da Heineken então…

    Abraço.

  4. Quando tava lendo o texto, antes de ver as fotos, já tinha imaginado o lugar, a festa e o De, que tb é meu brother.

    Me sinto igual quanto, uma vez ao ano, invento de ir em uma festa assim de jovens hahahha

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