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Mestre errante

27 July 2008 One Comment

Era apenas um maluco.
Pelo menos era visto assim por todos que passavam por ele. Desrespeito.
Em seu mundo próprio, peregrinava pela cidade construída por ele e que agora, insuportavelmente e sem seu controle, crescia sem prumo e sem esquadro. Um absurdo. Talvez seja por isso o motivo de tantas reclamações durante seu trajeto. Reclamações.

Seu aspecto ranzinza vez em quando assustava pessoas. Seu olhar fixo e reprovador, demonstrava a insatisfação por tudo o que fizeram com sua cidade. Ele havia construído. E agora…
Mais reclamações.

As horas passavam e mesmo sem notar, caminhava sem rumo, trajando aquele que, em outros tempos, era seu uniforme de trabalho. E na sua inconsciência perfeccionista, carregava seu capacete branco. Simbolicamente representando seus pensamentos límpidos, sua mente pura, o vazio de imposições sociais que não mais ali habitavam.

E ele era o mestre. Respeito.

E com tudo o que fizeram, tornou-se o peregrino. Mente limpa. Mendigo. Maluco. Lhe restara apenas seu símbolo. Seu capacete e suas reclamações.

Alguns dias atrás, deitou-se no seu barracão de papelão. Cobriu-se com a noite e contou as estrelas para certificar-se de que nem tudo puderam mudar. Nem tudo puderam alterar de sua criação. Mais algumas reclamações.

E em seu sono tranquilo, lembrou-se de ainda pequeno carregar latas de arenoso para seu pai. Que sorria para ele. Menino franzino mas será um bom mestre. Ainda dormindo sorriu, certo de ter feito aquilo que seu pai desejava. Mais uma obra concluída em sua vida.

Abriu os olhos. Os primeiros raios de sol banhavam a sua cidade. Que já não era mais sua.
Levou sua mão esquerda acima da cabeça e tateou o vazio.
Levantou assutado e após alguns segundos percebeu que seu símbolo, sua mente límpida, o único objeto que conferia alguma identidade a ele, havia sumido.

Tentou correr mas não sabia pra onde. Tentou reclamar mas o desespero era maior e calava sua voz.

Olhou para o céu implorando uma resposta.

Deitou-se novamente no papelão e em posição embrionária lembrou-se de seu pai. Depois, chorou.

One Comment »

  • luandrade said:

    uau!! que lindo.
    gostei muito.

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