Mestre Errante – parte II

Ao segurar seu capacete, símbolo de sua identidade e único objeto que o fazia lembrar quem ele verdadeiramente era, sorriu. Apertou-o contra o peito e prometeu nunca mais deixar que aqueles meninos idiotas o pegassem.
Olhou cuidadosamente todos os detalhes mas verificou que havia um grande arranhão na parte superior, quase alinhado com o eixo longitudinal. Uma ferida na sua lucidez.
Por que todos queriam ferí-lo? Já não era castigo demais?
A bebida não mais lhe apetece, sua mulher e seus filhos o deixara ao relento, Ã mercê do próprio azar.
Mais reclamações. Mais lembranças. Mais indignação.
Caminhou pela cidade em um dia de clima quente. Não havia nuvens e sua cidade parecia querer furar o céu.
Mal sabem que ele construiu tudo. Porém, tudo está tão diferente agora. Tudo está bem maior, mais novo.
Em um determinado instante ouviu um grito de pneu. Alto e agudo, desesperado e premeditanto algo pior. Lembrou-se imediatamente das correias gastas do elevador de obra. Roldanas enferrujadas. Mais reclamações, pois o encarregado não tem a coragem de colocar um óleo.
Depois do grito estridente um barulho forte e vidros quebrados. Medo. Muito medo. Dois carros se chocaram e ele presenciou aquilo. Tentou chegar mais pra perto da grama mas um segurança, de longe, mandou ele sair dali.
– Sai, sai, sai. Não pode pisar na grama, velho maluco.
Ainda mais assustado, andou alguns metros, virou-se e olhou a discussão. Um homem gritando irritado com uma mulher que não conseguia sair do carro. Medo.
Testemunhando toda a gritaria, reclamou. Mas reclamou baixo, para não correr o risco de tentarem pegar novamente seu capacete para se proteger da batida. Mais alguns passos e estava em local seguro para observar.
Algumas pessoas passavam lentamente e outras estacionavam para ver. Uma completa confusão e um princípio de engarrafamento. Era domingo. Mas a avenida era movimentada.
Confusão. Muita gente. Isso não era bom.
Eles iriam pegar o capacete. As pessoas já estavam olhando para ele, sabiam que o capacete era um bem precioso. Precisava sair dali correndo.
Apressou o passo, não olhou pra trás mas estava ouvindo tudo. Algumas crianças sairam correndo para ver a batida. Ele, velho, correu para o lado oposto.
Depois de uma grande distância, parou ofegante. Apoiou-se em seu prumo e olhou para trás. Uma grande confusão formada.
Ele conseguira fugir.
Olhou para o capacete e viu o arranhão.
Reclamou, depois, de forma tímida sorriu e pensou:
– Bem feito.











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