Pés e mentes
Fernando olhou para Uéslei.
Apenas em questão de segundos em que se entreolharam, o estereótipo, a rotulação e o preconceito fluíram pelas atitudes que se seguiram. Já era noite quando se cruzaram na porta do Festival de Verão.
Um morava em um bairro de residências imponentes e bem conceituado da cidade. Os pais eram os perfeitos representantes dos membros das confrarias poderosas da sociedade e galgavam posição de destaque em suas profissões. Belos exemplos de sucesso e determinação, embora suas atuais posições fossem apenas manutenção do que cultivaram ao longo de suas próprias vidas, desde o berço.
O outro residia em uma pequena casa ainda inacabada em um bairro humilde da periferia da região metropolitana. Longe mesmo. A rua era de barro e de seus pais, somente sua mãe ainda labutava como costureira. Seu pai perambulava por 8 meses à procura de qualquer emprego. Mas com idade de 54 anos e currículo de 4 linhas não havia muitas opções. Aliás, não havia opção nenhuma.
Um frequentava a faculdade de Direito. Depois de ter estudado a vida toda em um famoso colégio particular, passara no vestibular desejado. Tradicionalmente, seguia a determinação dos anseios da família, mesmo que sua vontade fosse outra. De qualquer forma, identificava a carreira como um trabalho que futuramente seria rentável e não a tratava com a seriedade que esta merecia. Só estudava. Na verdade, frequentava as aulas.
O outro deixou os estudos para cuidar de suas prioridades. Aliás, das prioridades da casa. Parou no ginásio, em um colégio público, para trabalhar de boy em uma empresa pequena no bairro em que morava. O trabalho enobrece. Ainda permanecia como boy, depois dos 3 anos de carteira assinada. Seu sonho já era comprar uma moto e virar motoboy. Um upgrade na sua função e um status a mais para as meninas do bairro.
Um ia para a night de Audi A3, carrão que o pai dera de presente por ter passado no vestibular. Até porque o filho precisava de transporte para ir à faculdade. Ar-condicionado, direção, vidro, trava…completo. E ainda vinha com os olhares encantados das “gatas da facul”. Um playboy perfeito. Ainda tinha um dock para encaixar o iPod novo…aquele mais fino, que ganhara de presente do tio que voltava de uma viagem dos States. That’s fucking cool, man! Excelente para ir pra balada se preparando com o Trance louco.
O outro gostava de ouvir toques polifônicos do “chicrete” no celular, enquanto aguardava penosamente chegar seu ponto. Sentado na traseira do busú, sempre lotado, ouvia a melodia primária de “…então diga que valeu…o nosso amor valeu demais…” e balançava o corpo lembrando da pipoca na Carlos Gomes. Foi um momento emocionante, onde a euforia deu uma trégua e todos cantaram com a mão pra cima, sem empurra e sem murro na cara. E no busú sempre tinha algum broder que acompanhava o movimento, mesmo que ele nunca o tivesse visto antes.
Naquela noite, um chegou em casa preparado para o Festival. Abriu um Smirnoff Ice e deixou rolar o show de Ivete em DVD na sua nova LCD de 32′ que colocou no quarto. Na parede em frente a cama, um pouco abaixo do Split. Que show bala! Ivete é tudo de bom. Hoje não tinha Boate Lótus…era dia de camarote no Festival e a galera estava insana já ligando e mandando várias mensagens para fazer a concentração no posto do imbuí. Puma, The Planet, Nike Air, Swatch. Tá montado o sucesso. Ligou até o contador, pois hoje, ele ia pegar geral. Hoje era dia de bater o recorde do carnaval. Ainda mais com open-bar.
Nessa mesma noite, o outro chegou cansado. Mas já tinha comprado o ingresso Pista depois de muito ter suado para reservar um dinheiro pra isso. Mas ele conseguiu. Imagine perder aquele show. Pagodão trabalhando em alta. Ali ele poderia conhecer uma figura interessante, que curtisse a festa e que pudesse conhecer depois. Queria casar. Sua mãe recomendou tudo o que costumava falar toda vez que ele saía. Saiu e desceu pra pegar o busú da linha especial montada pro Festival. Camisa da C&A, jeans sem marca do Taboão e tênis Olympikus. É o “stáile”, meu rei.
Chegaram.
Uéslei estacionou o Audi e encontrou a galera pra entrar.
Fernando desceu do busú com a caravana de seu bairro e foi logo pegar um lugar na fila.
Um tinha pés sujos e a mente limpa.
O outro tinha pés limpos mas a mente suja.
E você?









Po… velho!
Mais um belo conto para integrar a constelação!
Como sempre mantendo a peculiaridade e perspicácia, hein Samurai?
Às vezes realmente não atentamos para limpar a parte que usamos para atingir o próximo, e terminanos por espalhar “sujeira” onde passamos.
Enfim, muito boa abordagem do assunto.
Bjin.
Sábias palavras.
Adorei o texto!!! Me identifiquei com a terceira personagem, kkk. Apesar que eu tb gosto de Ivete Sangalo, kkkkk. bisous
gostei Laert… bom conto. Junta tudo e vamos para a FLIP com nossos textos embaixo do braço para fazer merchand.
É isso… infelizmente essa “sujeira” não sai com sabão…
Estamos todos sujos!
Beijos
Velho, excelente conto. Bem profundo (lá ele). Hoje em dia se fala muito nisso, ética, moral…. as pessoas se preocupam bastante em saber o que certo ou errado, mas na hora da ação não se faz o que deve ser feito. (Parece música?!?!)
Up the Laert.
Eu li … eu consegui vencer o sono e li … todinho!!!
E eu consegui vencer o preconceito com os posts grandes e li.
Belo conto… bem baiano “de se ver”.
respondendo o “E você?”
tenho mente suja e os pés sujos !! ^^
Cara, … é isso aí!
Mente limpa e pés limpos ao mesmo tempo não é algo fácil de se ver, não mesmo, pelo menos na minha ainda curta, mas muito intensa, experiência de vida não consegui ver essa combinação em ninguém.
Por alguma razão lembrei dos meus últimos 4 anos, lá na facu. Toda vez que anunciava-se uma grande festa, saíam de lá um monte de “Fernandos”.
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Passado
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